PEÇA TEATRAL: "MÁSCARAS SOCIAIS"



PERSONAGENS:


ATO ÚNICO

CENÁRIO: O pátio da escola. Um banco de madeira. Ao fundo, um telão (ou cartaz) projetando uma interface de rede social.

(A cena abre com ALICE sentada no banco, digitando freneticamente no celular e rindo sozinha. MARLOM entra em cena ouvindo música, caminhando com postura.)

ALICE: (Sem tirar os olhos do celular) Ih, lá vem o "Leão da Montanha". Cuidado, gente, se o Marlom balançar a cabeça, a escola inteira fica cheia de poeira.

MARLOM: (Para e tira os fones) 



Engraçado, Alice. Mas o que te incomoda não é a poeira, é o volume. Meu cabelo ocupa o espaço que você queria que eu não tivesse, né?

ALICE: (Levanta-se, debochada) Espaço? Marlom, querido, eu te faço um favor. Se você cortar isso e passar um gel, talvez as meninas parem de rir de você no grupo da sala. Inclusive, acabei de postar uma enquete: "Capacete natural ou ninho de pombo?". Tá bombando!

MARLOM: (Magoado, mas firme) Isso não é enquete, é Racismo. Você usa a tela do celular pra esconder o crime que comete com a língua.

(JAE entra em cena, apressado. Ao passar por Alice, uma de suas guias (colar de contas) escapa por cima da camiseta.)

ALICE: (Aponta e grita) Epa! Que que é isso, Jae? Trouxe o "trabalho" pra escola? Cuidado, gente, não mexe com ele que ele vai fazer um bonequinho de vudu pra vocês!

JAE: (Segura a guia com carinho) O nome disso é fio de contas, Alice. É minha proteção. É a minha fé. Você respeita quem usa crucifixo, por que o meu sagrado te causa tanto asco?

ALICE: Porque é estranho! É coisa de gente atrasada. Eu sou moderna, eu sou da ciência... e da zueira, claro. Liberdade de expressão, conhece?

(RENATA entra em cena, vindo da direção oposta. Ela ouve a última frase.)

RENATA: Liberdade de expressão não é salvo-conduto para ser ignorante, Alice. Eu vi o que você comentou na foto da minha namorada. "Que desperdício, duas meninas bonitas sozinhas".

ALICE: (Dando de ombros) E não é? Um absurdo. Vocês são confusas, Renata. Precisam de um choque de realidade.

RENATA: O único choque aqui vai ser o da realidade batendo na sua porta quando o conselho tutelar ler o seu histórico de buscas e postagens. O que você faz com o Jae é Intolerância Religiosa. O que faz com o Marlom é Injúria Racial. E o que faz comigo é Assédio.

ALICE: (Começa a gravar um vídeo) Olha aqui, gente! O "bonde dos ofendidos" se reuniu pra me cancelar. Estão todos aqui: o macumbeiro, o capacete de aço e a caminhoneira. Curtam e compartilhem se vocês também acham que o mundo tá muito chato!

MARLOM: (Aproxima-se da câmera) Pode gravar, Alice. Grava bem de perto. Mostra pro mundo que por trás desse filtro de "menina legal", existe alguém que precisa diminuir os outros pra se sentir grande.

JAE: A minha fé me ensina o perdão, mas a lei dos homens me garante o respeito. Você vai apagar esse vídeo agora.

ALICE: (Hesita por um segundo, vendo a seriedade deles) Ou o quê? Vocês vão me bater?

RENATA: Não. Nós vamos fazer algo muito pior para alguém que vive de imagem: nós vamos te denunciar formalmente. E dessa vez, não vai ter "foi mal, tava doida" que te salve.

(Os três se aproximam de Alice, não de forma ameaçadora, mas com uma união poderosa. Alice recua, o celular treme na mão dela.)

MARLOM: Meu cabelo é história.JAE: Minha guia é caminho.RENATA: Meu amor é resistência.

TODOS (Menos Alice): E o seu crime... tem nome.

(Alice desliga a câmera, o semblante de deboche desaparece e ela fica em silêncio, cercada pela verdade dos outros três.)

LUZ APAGA LENTAMENTE.