O povoamento da América
Tendo em vista que os primeiros hominídeos surgiram no continente africano, como ocorreu a chegada da espécie humana na América?
Vejamos, a seguir, algumas hipóteses que buscam explicar o processo:
Teoria do Estreito de Bering: a mais aceita entre os especialistas, considera que os primeiros grupos humanos teriam alcançado a América graças a uma passagem terrestre formada durante a última era glacial, entre a Sibéria (Rússia) e o Alasca (Estados Unidos).
Hipótese do povoamento pelo Pacífico (ou teoria Malaio-Polinésia): defende que a América foi ocupado por Homo sapiens vindos da Ásia, navegando com canoas de ilha em ilha no Oceano Pacífico.
OBSERVAÇÃO: Alguns estudiosos defendem a conciliação entre as duas explicações, ou seja, que o povoamento da América teria ocorrido tanto a partir da travessia pelo Estreito de Bering quanto pela Oceania.
No início do século XX, muitos estudiosos defendiam o povoamento tardio da América, ou seja, que ele teria ocorrido entre 12 mil e 14 mil anos atrás. Porém, novos estudos genéticos e descobertas arqueológicas contribuíram para que cientistas e arqueólogos defendessem a teoria do povoamento precoce da América, ou seja, que diz que isso ocorreu há cerca de 30 mil ou 25 mil anos.
Os paleoameríndios do Brasil
Denominamos de paleoamericanos ou paleoameríndios os primeiros povos que adentraram e habitaram a América, em contexto anterior ao surgimento da agricultura e da cerâmica no continente, antesde 8 mil a.C. Trata-se de um período marcado por grande diversidade cultural, afinal os povos apresentavam diferentes línguas, práticas culturais e formas de organização social.
Vejamos as principais características dos paleoameríndios encontrados no Brasil:
Compunham comunidades que viviam da caça, pesca e da coleta de frutos;
Produziam armas e outros utensílios de pedra;
Eram povos nômades, ou seja, deslocavam-se com frequência em busca de melhores condições de vida;
Coexistiram com uma megafauna que incluía tatus-gigantes, tigres-dentes-de-sabre e preguiças- gigantes;
Faziam uso do fogo para aquecerem os alimentos e afugentar os animais perigosos;
Abrigavam-se em cavernas, onde muitos deixaram seus próprios registros.
Figura 12 - Pinturas rupestres do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí. Fonte: Shutterstock.
Luzia é o nome dado ao fóssil mais antigo da América do Sul, encontrado em 1975. Sabe-se que era uma mulher de 1,50 metro de altura, que habitava a região que corresponde a atual cidade mineira de Pedro Leopoldo, há mais de 11 mil anos. Fazia parte de um grupo de caçadores-coletores, se alimentando de pequenos frutos, tubérculos, folhagens e pedaços de carne. Os estudiosos batizaram o seu grupo de povo de Lagoa Santa.
Os paleoameríndios contemporâneos de Luzia dominavam o fogo e técnicas de fabricação de artefatos com pedra lascada, com pontas de lança. Isso era fundamental para caçarem os imensos mamíferos que habitavam aquela região, tais como tigres-dentes-de-sabre, preguiças gigantes e mastodontes que chegavam a pesar 5 toneladas.
Em 2018, equipes internacionais de pesquisadores analisaram o genoma de Luzia e outros fósseis de antigos habitantes das Américas, chegando à conclusão de que Luzia apresentava ligação com a “Cultura Clóvis”, nome dado às primeiras populações que se instalaram na América do Norte. A constatação de que Luzia possuía ancestral comum culturas paleoameríndias do passado e culturas ameríndias do presente reafirmou a Teoria do Povoamento pelo Estreito de Bering, defensora de que a ocupação da América se deu a partir de três levas migratórias, descendentes dos primeiros grupos a se fixarem na América do Norte.
Em setembro de 2018, o Museu Nacional, instituição de pesquisa que abrigava o crânio de Luzia, foi consumido pelas chamas de um trágico incêndio. Mais de 90% do acervo foi destruído, e por várias semanas o fóssil foi dado como destruído. Contudo, no mês seguinte uma equipe de pesquisadores anunciou a recuperação de Luzia em meio aos escombros do Museu. Foi o renascimento do crânio de Luzia, chamada carinhosamente de “a primeira brasileira”.
Figura 13 - Reconstituição do rosto de Luzia. Fonte: Agência Fapesp.
O termo sambaqui tem origem tupi, e quer dizer monte de mariscos (tamba: marisco; ki: amontoado). Eles se encontravam espalhados por todo o litoral brasileiro, e foram constituídos por povos pescadores-coletores-caçadores que podem ter habitado a região há 7 mil anos atrás. Como essas praias eram abundantes em peixes e moluscos, esses agrupamentos humanos chegaram a formar imensos montes feitos de ossos e conchas de animais, que se destacam pela sua monumentalidade. Alguns deles chegaram a ter 30 metros de altura.
Figura 14 - Acúmulo de conchas em sambaqui catarinense. Fonte: Revista Fapesp
Nesses imensos sítios arqueológicos foram encontradas sepulturas, vestígios de habitações, utensílios feitos com ossos e conchas e adornos. Alguns deles foram formados em alguns decênios, outros em até mais de um milênio, o que não permitiu aos pesquisadores concluir se essas regiões eram permanentemente ou sazonalmente ocupadas.
Por volta de mil anos atrás, os sambaquis desapareceram do território que posteriormente viria a ser conhecido como Brasil. Alguns arqueólogos acreditam que isso tenha sido motivado pela chegada de povos ceramistas vindos do Planalto Central, que os exterminaram ou os assimilaram em sua cultura.